Vítor Pleno é campeão nacional de Cross Longo ANDDI 2018

A medalha de ouro do Campeonato de Portugal de Cross Longo ANDDI 2018 pertence a Vítor Pleno. O atleta, portador de deficiência mental e utente da APPACDM (Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente Mental) de Coimbra, consagra-se, assim, campeão nacional de Cross Longo. O prémio foi disputado por mais de 100 atletas no domingo, dia 11, em Tábua.

O Cross Longo define-se como uma modalidade desportiva de Corta-Mato, onde o terreno que os desportistas percorrem é, muitas vezes, de grande dificuldade. No caso da competição de domingo, Vítor Pleno e restantes atletas percorreram 7200 metros em condições atmosféricas pouco favoráveis, com chuva fraca, frio e céu nublado. As palavras são do presidente da ANDDI Portugal, José Costa Pereira, que sublinha ainda que a dificuldade da prova era acentuada, pela existência de subidas e descidas em zona de pinhal. Participaram na prova cerca de 100 atletas, dos quais 15 são portadores de deficiência intelectual. Com esta vitória, o atleta da APPACDM de Coimbra validou o título que já era seu desde o ano passado.

De acordo com o treinador do desportista e fisioterapeuta da APPACDM de Coimbra, António Oliveira, Vítor encontra-se feliz, mas cansado. O caso do atleta é paradigmático: de dia treina e ganha medalhas e campeonatos, à noite trabalha como padeiro. A preparação para o Campeonato de Portugal de Cross Longo Anddi 2018 já estava a ser realizado há muito. Vítor chega a treinar seis vezes por semana, mas, como refere, gosta muito do que faz.

Fotografia gentilmente cedida por ANDDI Portugal

Vítor Pleno: padeiro à noite, campeão do Mundo durante o dia

Vítor chega à pista, vestido de azul, como a maioria dos colegas de treino. Cumprimenta-os e recebe cumprimentos de volta. O treinador, António Oliveira, dá-lhes as indicações necessárias para aquele treino. A pista já estava cheia, com outros atletas, e o campo de relva verde do Estádio Cidade de Coimbra era palmilhado por várias crianças que treinavam futebol. Vítor e os colegas começam a correr ao mesmo tempo, dando várias voltas pela pista tom de telha.

Vítor tem 32 anos e é atleta de desporto adaptado pela APPACDM de Coimbra. É um atleta com deficiência intelectual, o que, durante algum tempo, o fazia acreditar que não era capaz de superar as provas. A vida contradisse-o: foi campeão do Mundo, Europeu e Nacional várias vezes. Em 2010, na Hungria, tornou-se Campeão do Mundo em cross curto e longo. Vítor compete em várias modalidades, em corta-mato e em estrada. Mas é, sobretudo, um atleta fundista, talhado para o corta-mato e para os 3000 metros de obstáculos, onde se sente como um peixe dentro de água.

Começou a treinar aos 15 anos. Com um sorriso tímido diz, de forma humilde, que o que mais gosta no atletismo é mesmo de correr, seja no meio da Natureza ou no tartan. À noite, madrugada fora, trabalha como padeiro na Tocha, local onde vive. Durante o dia descansa e, ao final da tarde, ruma a Coimbra para treinar. É assim seis dias por semana. “Há semanas em que treina todos os dias”, revela o treinador. No entanto, a norma fica-se pelos seis treinos semanais, com um dia de “folga”.

Entre o trabalho e os treinos, Vítor tem uma família: um filho e uma companheira. O atleta diz que algumas vezes é difícil conjugar tudo, mesmo só com o descanso possível. António Oliveira confirma que não é nada fácil fazê-lo. Porém, Vítor acrescenta, com um sorriso enorme, que gosta muito do que faz. Destaca, também, o facto de correr fazer bem à saúde e poder conhecer outros atletas.

Para António Oliveira, treinar o Vítor implica “muito trabalho de base”, pelo facto de ser “um processo de raiz”. Conhecem-se e trabalham juntos há quase 20 anos. Tudo começou quando trabalhava como monitor de desporto da APPACDM Coimbra e, num projeto que visava colocar os utentes a fazer desporto, visitava as várias unidades funcionais da instituição. Assim conheceu Vítor e, considerando que o jovem tinha as capacidades para se tornar um bom desportista, começaram a treinar. Até hoje.

O treinador afirma que o maior obstáculo no treino de atletas de desporto adaptado está, essencialmente, na parte psicológica. “Muitas vezes não acreditam neles próprios, têm baixa autoestima”, afirma. Assim, para além de ser necessário um treino físico, é preciso, muitas vezes, praticar a nível mental, para que os desportistas consigam acreditar em si mesmos. “Por muito bom que o atleta seja em termos da sua capacidade física, se eles não tiverem os níveis de motivação também trabalhados e elevados, é muito complicado atingirem o plano a que o Vítor chegou”, explica António Oliveira. “Temos que os fazer acreditar que são capazes como os outros”. Para além do desporto adaptado, Vítor compete num clube, juntamente com atletas sem qualquer incapacidade intelectual. Esta inclusão, explica o treinador de Vítor, foi muito importante para a autoestima do desportista.

Vítor diz que o seu ídolo é Nelson Évora. Gostava de chegar aos Jogos Paralímpicos, mas considera um objetivo muito difícil. Porém, remata que treina com esse sonho em mente. Apesar de já ter sido Campeão do Mundo por várias vezes, Vítor afirma que, neste momento, o seu sonho é tornar-se campeão distrital de Coimbra – e tudo o mais o que conseguir alcançar.

Vítor Pleno é campeão nacional de Cross Longo ANDDI 2018